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O ser humano – A.S.

Quem sou eu? Quem é você ? Como podemos definir a humanidade ?

Fico surpreendido com a discrepância das ações humanas. É possível encontrar gestos de amor e ao mesmo tempo, gesto de ódio, violência, destruição. O individualismo é uma característica da sociedade contemporânea, mas o ser humano não sobrevive sem o outro.

A vida não faz sentido sem outras pessoas. Tanto é que, uma das maiores dores é a rejeição. Todos buscam o reconhecimento, a aceitação das outras pessoas. É claro que nesta busca, não é possível e nem natural ter a aceitação de todos. A mulher que gasta um tempão para encontrar uma roupa, para se arrumar, fazer a maquiagem, para ir em algum evento, ela está preocupada em ter a aceitação de outras mulheres e também de homens. Se não houvesse outras mulheres, outras pessoas, não faria sentido ela se preocupar se vai vestir a mesma roupa do evento passado.

Ser o primeiro da classe, o melhor jogador do time, são atitudes do ser humano que deseja reconhecimento. A criança que procura aprontar alguma “arte”, muitas vezes demonstra o sentimento de ter a atenção dos pais, o carinho dos pais.  O ser humano é carente da relação com o outro. Foge ao meu conhecimento o autor desta frase, mas ele estava certo quando afirmou “o ser humano não é uma ilha para viver isolado”.

Diversos males da nossa sociedade são frutos da falta de relacionamentos saudáveis e profundos. O lema “cada um por si” tem causado estresse, depressão, fobias e até mesmo, alguns cânceres. A ganância tem iludido a humanidade de uma felicidade superficial e passageira.

O cinismo assola o nosso mundo. Diferente da corrente filosófica “Cinismo”, que pregava o desapego as riquezas e bens naturais, hoje, o cinismo significa a falta de sensibilidade ao sofrimento do outro. Cinismo é a indiferença. Os programas de TV mostram diversos sofrimentos, os telespectadores acompanham, assistem, mas não tem atitudes. A humanidade tem se conformado, crendo que tudo isto é normal.

A violência, fome, miséria, desigualdade social, desmatamento, drogas, corrupção, pirataria, trabalho escravo, trabalho infantil, pedofilia, prostituição, tem se tornado “normal”. Diante de tantos males e cada um buscando o seu próprio prazer, sua própria sobrevivência, as pessoas sentem-se impotentes.

Falta ética até mesmo nos avanços científicos e tecnológicos. O que adianta chegar na lua, enquanto centenas de milhares ainda não tem energia elétrica, água encanada, moradia e alimentação? Na época do iluminismo, o culto a razão, acreditava-se que através da educação – racionalização – todos os problemas seriam resolvidos. Prepotência humana. Quanto mais se aproxima da Verdade, mais percebe-se o quanto conhecemos pouco.

Será que o caminho é a educação ? Embora eu acredite que a educação seja importante, ela não é o remédio para resolver de vez estes males. Diversas pessoas cultas, com seus títulos, são corruptas e indiferentes aos problemas do outro. Pessoas que foram criadas nos “melhores” lares e estudaram nas “melhores” escolas, cometem atos criminosos estupendos, como assassinato e roubo.

E toda educação tem uma ideologia por trás. E a nossa educação tem sido influenciada pela cultura do consumo. Aumenta o número de faculdades, tendo os alunos como “clientes”. Aumenta o número de alunos formados, mas poucas as pesquisam que visam melhorar o mundo em que vivemos.

Infelizmente, temos uma educação bancária, na qual o professor prepotente deposita o seu conhecimento em sala de aula, crendo que o aluno não tem nada a oferecer. Falta o estímulo a criatividade e curiosidade. Não há verdadeiro “conhecimento”  ou “construção do conhecimento” sem a curiosidade. Professores fingem ensinar e alunos fingem estudar.

Jovens não acreditam mais num ideal, na utopia, nas mudanças. Diminui o envolvimento dos jovens na política. Afinal, os poderosos continuam escravizando e passando a idéia que “não é possível fazer nada” – “nada pode mudar”. A humanidade aceita e entra no sistema do individualismo.

Pais se matam para trocar o modelo de celular dos seus filhos a cada 3 meses ou até menos. Vizinhos nem se conhecem mais. Taxamos todos os mendigos, todos os andarilhos, todos os moradores de ruas, todos os “favelados”, de pessoas preguiçosas, de mau caráter.

Será que existe cura? Nossa sociedade tem cura?

Creio e tenho esperança que sim. O caminho da cura não é fácil, mas é mais simples do que imaginamos. Reconhecer que precisamos do outro e que o relacionamento humano é essencial para o nosso desenvolvimento. Não somos máquinas, somos humanos. A nossa essência é a relação com o outro. Não faria sentido nem mesmo ter um “nome”, “sobrenome”, se o outro não existisse.

Conversando com algumas pessoas, elas compartilharam uma dura realidade, que em determinados momentos elas perceberam que estavam rodeadas de muitas pessoas, mas não tinham amigos. Os relacionamentos profundos não são incentivados hoje. Ter amigo não é tão fácil. Construir um relacionamento dá trabalho, leva tempo, exige renúncias. Mas no tempo da instantaneidade, onde tudo é muito rápido, as pessoas não querem esperar, não querem construir. Elas preferem tudo pronto e imediato, não importa se tem qualidade.

Quando um vendedor oferece uma “garantia extendida” de um produto que você acaba de comprar, você percebe que os produtos hoje são fabricados para durar pouco.

Eu sei que  os relacionamentos não são fáceis, mas para o desenvolvimento humano eles são essenciais. Hoje, algumas empresas mudaram e estão procurando pessoa que saibam se relacionar e trabalhar em equipe. Muitas pessoas não encaram um relacionamento profundo, como uma boa amizade ou até mesmo o casamento, por medo e por imaturidade. O desenvolvimento humano não é um caminho só de flores, tem suas dificuldades, muitas vezes tem suas dores.

A cura da sociedade contemporânea está num texto muito antigo e conhecido, mas pouco praticado: Amar a Deus sobre todas as coisas e amar o próximo como a si mesmo. (Deuteronômio 6.4-5  – Levíticos 19.18 – Mateus 22.37-39).

Quando as pessoas colocam Deus no centro das suas vidas e tem um verdadeiro relacionamento com Ele, elas passam a ter uma cosmovisão bem diferente da anunciada em nossos tempos. Elas começam a enxergar a vida de um outro prisma, com outros olhos. É como se outrora fossem cegos e agora, enxergam.

As pessoas que vivenciam um relacionamento com o Criador, elas enxergam as outras pessoas na ótica de Deus.  Quando eu desenvolvo uma amizade com Deus, eu deixo de buscar uma água que não sacia e começo a beber de uma água viva, que sacia a minha sede de forma integral.

Tratar o outro como eu gostaria de ser tratado é a grande regra de ouro. Imagina como muitas coisas mudariam se a maioria seguisse esta regra ? Se quero ser respeitado, eu respeito. Se eu quero reconhecimento, eu reconheço as virtudes do outro. Se eu quero perdão, eu ofereço o perdão. Se eu quero carinho, eu dou carinho. Se colocar no lugar do outro é uma atitude de pessoas maduras.

A humanidade foge do seu propósito, da sua missão. Ela evita o desenvolvimento verdadeiro. Encontramos diversas pessoas nos seus empregos, frustradas por não fazer o que foram vocacionadas, mas tem a estabilidade financeira e o status perante os outros, vizinhos, “amigos” e sociedade.  Pessoas que abandonaram seus sonhos, que vivem anestesiadas.

“A sociedade anestesiada” é um bom título de um livro.  O prazer imediato (hedonismo) e sem compromisso, o culto ao corpo, o alcoolismo, as drogas, consumismo, materialismo, prostituição, são anestesias de uma sociedade com dores. Estes remédios são passageiros, depois que passa o período de anestesia, as pessoas voltam nas suas dores: solidão, depressão, falta de sentido.

O caminho é o relacionamento com Deus e conseqüentemente o relacionamento com o próximo. Quando eu recebo esta nova cosmovisão, eu tenho esperança e creio nas mudanças, fazendo a minha parte, construindo um futuro melhor. Eu passo a entender que as pessoas são mais importantes que as coisas.